quinta-feira, 29 de março de 2012

Marx e a política PDF Imprimir E-mail
Filosofia e Questões Teóricas
Terry Eagleton   
Karl Marx
Karl Marx
Se Marx é de fato algum tipo de filósofo, ele se distingue da maioria de tais pensadores por considerar suas reflexões, por mais abstrusas que sejam, em última análise, práticas, estando inteiramente a serviço de forças políticas reais, e na verdade um tipo de força política em si mesma.  Esta é a celebrada tese marxista da unidade entre teoria e prática - embora seja possível acrescentar que um objetivo da teoria  de Marx é chegar a uma situação social em que o pensamento não precisaria ser simplesmente instrumental, articulado com algum fim particular, podendo em vez disso ser usufruído como um prazer em si mesmo. A doutrina política de Marx é revolucionária - "revolução" sendo para ele definida menos pela velocidade, pelo caráter repentino ou pela violência do processo (embora ele pareça pensar que a construção do socialismo envolve uma força insurreicional), que pelo fato de que ela passa pela expulsão de uma classe possuidora e sua substituição por outra.  E este é um processo que pode claramente requerer um grande espaço de tempo para ser levado a efeito.  Podemos observar aqui a característica peculiar do socialismo: o fato de que ele envove a chegada ao poder pela classe trabalhadora, que ao fazer isto cria as condições para a abolição de todas as classes.  Uma vez sendo os meios de produção coletivamente possuídos e controlados, as próprias classes finalmente desaparecerão.
"Todas as classes que no passado conquistaram o poder procuraram consolidar o status adquitido sujeitando toda a sociedade às suas condições de apropriação.  Os proletários não podem se apoderar das forças produtivas sociais a não ser abolindo o modo de apropriação a elas correspondentes e, com isso, também todos os modos anteriores de apropriação.  Eles nada têm de seu para salvaguardar e consolidar; sua missão é destruir todas as seguranças e garantias da propriedade privada até agora existentes." [Manifesto Comunista]
Ou como Marx se expressa na linguagem de seus escritos de juventude:
"Deve ser formada uma classe com cadeias radicais, uma classe na sociedade civil que não é uma classe da sociedade civil, uma classe que é a dissolução de todas as classes, uma esfera da sociedade que possui um caráter universal porque seus sofrimentos são universais, e que não reivindica uma compensação particular, porque a injustiça que lhe foi feita não é uma injustiça particular, mas a injustiça em geral.  Deve ser formada uma esfera da sociedade que não reinvidica um status tradicional mas apenas um status humano [...]  Esta dissolução da sociedade, como uma classe particular, é o proletariado."  [Contribuição à Critica da Filosofia do Direito de Hegel]
Se o proletariado é a última classe histórica, é porque sua chegada ao poder no que Marx chama de "ditadura do proletariado" é o prelúdio da construção de uma sociedade na qual todos estarão na mesma relação com os meios de produção, como seus donos coletivos,  "trabalhador" não mais significa ser membro de uma classe particular, mas simplesmente todos os homens e mulheres que contribuem para produzir e manter a vida social.  A primeira fase da revolução anticapitalista é conhecida por Marx como o socialismo, e não é uma fase que envolva completa igualdade.  Na verdade, Marx vê a noção de "direitos iguais", herdada da época burguesa, como um tipo de reflexo espiritual da troca de mercadorias abstratamente iguais.  Isto não quer dizer que para ele o conceito seja desprovido de valor, mas que ele reprime inevitavelmente a particularidade de homens e mulheres, os diversos talentos próprios de cada um.  Ele atua assim, entre outras coisas, como uma forma de mistificação, ocultando o verdaeiro conteúdo das desigualdades sociais atrás de uma mera forma legal.  No fim, ao próprio Marx interessa mais a diferença que a igualdade.  No socialismo, continua sendo um fato que
"um homem é superior a outros física e mentalmente, e assim fornece mais trabalho no mesmo tempo, ou pode trabalhar por mais tempo; e, para servir como medida, o trabalho deve ser definido por sua duração ou intensidade, caso contrário deixa de consttituir um padrão de medida.  Tal direito igual é um direito desigual para o trabalho desigual.  Não reconhece diferenças de classe, uma vez que cada homem é um trabalhador tanto quanto qualquer outro, mas reconhece tacitamente privilégios desiguais.  É, por conseguinte, um direito de desigualdade em seu conteúdo, como todo direito. Por sua própria natureza, o direito só pode consistir na aplicação de um padrão igual; porém indivíduos desiguais (e eles não seriam indivíduos se não fossem desiguais) são mensuráveis apenas por um padrão igual na medida em que são considerados de um ponto de vista igual, apreendidos por um só aspecto determinado, por exemplo, no caso presente, enquanto forem considerados apenas como trabalhadores e nada mais, sendo tudo o mais ignorado.  Além disso, um trabalhador é casado, outro é solteiro; um tem mais filhos que outro, e assim por diante.  Desta maneira, com um empenho igual no trabalho e, portanto, com uma participação igual no fundo social de consumo, uns receberão efetivamente mais que outros, uns serão mais ricos que outros etc.  Para evitar todos estes defeitos, o direito, em vez de igual, teria de ser desigual." [Crítica do Programa de Gotha]
O socialismo, portanto, não propõe nenhum nivelamento absoluto dos indivíduos, mas envolve um respeito por suas diferenças específicas e permite, pela primeira vez, que tais diferenças se realizem.  É desta maneira que Marx resolve o paradoxo do individual e do universal: para ele, o último termo significa não algum estado do ser supra-individual, mas simplesmente o imperativo de que cada um deva estar incluído no processo de desenvolver livremente suas identidades pessoais. Porém, enquanto homens e mulheres ainda precisarem ser recompensados de acordo com seu trabalho, as desigualdades inevitavelmente persistirão.
O estágio mais desenvolvido da sociedade, contudo, chamado por Marx de comunismo, desenvolverá as forças produtivas até um ponto de abundância tal que nem a igualdade nem a desigualdade estarão em questão.  Em lugar disto, homens e mulheres simplesmente retirarão do fundo comum de recursos o que quer que satisfaça suas necessidades:
"Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver desaparecido a escravizante subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, e com ela também a antítese entre o trabalho mental e o físico; quando o trabalho houver se tornado não um meio de vida, mas a necessidade fundamental da vida; quando as forças produtivas tiverem crescido com o desenvolvimento geral do indivíduo; quando todas as fontes de riqueza cooperativa fluírem mais abundantemente - só então o horizonte estreito do direito burguês será completamente ultrapassado, podendo a sociedade inscrever em suas bandeiras: 'De cada um de acordo com suas capacidades, a cada um de acordo com suas necessidades!'." [Crítica do Programa de Gotha]
Na sociedade comunista, estaríamos livres da importunidade de classe social e, em vez disso, disporíamos de lazer e energia para cultivar nossas personalidades de qualquer maneira que pudéssemos escolher, desde que respeitado o preceito de que a todos os outros seria permitido fazer o mesmo.  O que distingue este objetivo político mais nitidamente do liberalismo é o fato de que, uma vez que para Marx  uma expressão de nosso ser individual é também uma realização de nosso ser genérico, este processo de explorar e desenvolver a vida indidual seria levado a cabo reciprocamente, por meio de laços mútuos, em vez de em isolamento esplêndido.  O outro é visto por Marx como o meio para minha própria realização, em lugar de, como no melhor dos casos, um mero co-empresário no projeto, ou no pior como um obstáculo ativo para minha realização.  A sociedade comunista também direcionaria as forças produtivas legadas a ela pelo capitalismo para a meta de abolir tanto quanto possível todo trabalho degradante, libertando desta forma homens e mulheres da tirania da labuta e permitindo a eles engajarem-se no controle democrático da vida social como "indivíduos unidos" agora responsáveis por seus próprios destinos.  No comunismo, homens e emulheres podem recuperar seus poderes alienados e reconhecer o mundo que criam como seu, depurado de sua imobilidade espúria.
Mas a revolução socialista requer um agente, e este Marx descobre no proletariado.  Por que o proletariado?  Não porque seja espiritualmente superior às outras classes, e não necessariamente porque seja o mais oprimido dos grupos sociais.  Se fosse assim, os vagabundos, excluídos e indigentes - o que Marx um tanto devastadoramente chamava de "lumpen-proletariat" - seriam melhores.  Pode-se alegar que é o próprio capitalismo, não o socialismo, que "seleciona" a classe operária como o agente da mudança revolucionária.  É a classe que mais pode se beneficiar da abolição do capitalismo, e que é suficientemente abilidosa, organizada e bem situada para desempenhar tal tarefa.  Mas a tarefa da classe operária é levar a cabo uma revolução específica - a revolução contra o capitalismo; e não está assim em sentido algum necessariamente em competição com outros grupos radicais - digamos, feministas, nacionalistas ou militantes étnicos - que precisam completar suas próprias transformações particulares, idealmente em aliança com aqueles mais explorados pelo capitalismo.
Que forma tal sociedade assumiria?  Seguramente não a de uma ordem social dirigida pelo Estado.  O Estado político para Marx pertence à "superestrutura" reguladora da sociedade: é ele próprio um produto da luta de classes em vez de estar sublimemente além deste conflito, ou consistir em alguma resolução ideal dele.  O Estado é em última análise um instrumento da classe dirigente, uma maneira de assegurar sua hegemonia sobre as outras classes; e o Estado burguês em particular cresce a partir da alienação entre o indivíduo e a vida universal:
"a partir da própria contradição entre o interesse do indivíduo e o da comunidade, este assume uma configuração autônoma enquanto Estado, separada dos interesses reais dos indivíduos e da comunidade, e ao mesmo tempo como uma vida coletiva ilusória, porém sempre tendo por base concreta os laços reais existentes em qualquer agregado familial ou tribal - tais como a consaguinidade, a língua, a divisão de trabalho em grande escala, e outros interesses - e especialmente, como veremos em detalhe mais tarde, nas classes, já determinadas pela divisão do trabalho, que se destacam em cada agrupamento humano desse tipo e das quais uma domina todas as outras.  Segue-se disto que todas as lutas dentro do Estado, a luta entre a democracia, a aristocracia e a monarquia, a luta pelo direito de voto etc. etc. são apenas as formas ilusórias nas quais se trava a verdadeira luta entre as diferentes classes." [A Ideologia Alemã]
Marx nem sempre adotou um ponto de vista tão vigorosamente instrumentalista do Estado em suas análises detalhadas de conflitos de classe; mas estava convencido de que sua verdade, por assim dizer, está fora de si mesma, e além do mais o vê por si só uma forma de alienação.  Cada cidadão individual alienou ao Estado parte de seus poderes individuais, que assumem então uma força determinante sobre a existência social e econômica cotidiana, que Marx chama "sociedade civil".  A genuína democracia socialista, em contraste, reuniria estas partes gerais e individuais de nós mesmos, permitindo-nos participar de processos políticos gerais como indivíduos concretamente particulares - no local de trabalho assim como na comunidade local, por exemplo, em vez de cidadãos abstratos da democracia representativa liberal.  A visão final de Marx parece assim algo anarquista: a de uma comunidade cooperativa formada pelo que denomina "associações livres" de trabalhadores, que estenderiam a democracia à esfera econômica enquanto fazem dela uma realidade na esfera política.  Foi a este fim - que não é, afinal de contas, demasiado sinistro ou alarmente - que ele dedicou não apenas seus escritos, mas uma boa parte de sua vida ativa.
[EAGLETON, Terry.  Marx e a Liberdade.  Tradução de Marcos B. de Oliveira.  São Paulo: Editora UNESP, 1999, p. 47-52]

sábado, 8 de outubro de 2011

O sol de cada dia

A solidificação da vontade está presente sempre que os sonhos reaparecem, com os desejos mais absurdos que ao mesmo tempo se contrastam com os mais simples. Uns pratos de comida ao peso de um pote de ouro metaforicamente falando em algum lugar a qualquer instante ambos podem mudar uma realidade.
No olhar singular de Marx o trabalho é o processo libertador da sociedade, trás a esperança do poder, o sonho da conquista ou simplesmente a alegria de estar realmente incluído no processo social da sociedade.
Mesmo no processo escravocrata o negro através do trabalho foi mostrando seu valor e conhecendo seus limites, países caíram em derrocada como no caso da bolsa de valores, mais o trabalho trouxe alento e crescimento para uma sociedade que sempre foi grande.
As guerras destruíram grandes partes do mundo, pessoas inocentes não tiveram a oportunidade de conhecer filhos, pais e mães ou de simplesmente ver o sol nascer.
Os confrontos em sua maioria são de complexidades variadas, por inúmeras razões que no final não levam a nada, mas a sociedade tem o poder de fazer as dores de um mundo desaparecer ou ficar apenas como conceito de estudos históricos, e através do trabalho conseguem buscar a inovação e reconstruir novamente a sociedade dos homens justos com dignidade e acreditar na fé humana.
Somente o trabalho tem o poder de reconstruir uma sociedade forte e igualitária, e assim multiplicarmos a fé do homem pelo próprio homem.
Inclusão através do trabalho isso é fato só falta torna-se realidade.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

DEPUTADO FRANCISCO EVERARDO O "TIRIRICA"

Tiririca em Canoas



A Executiva Municipal do PR de Canoas preparou um almoço campeiro para receber o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva (PR/SP) TIRIRICA, no CTG Estância Gaúcha. O Deputado estará à disposição dos pré-candidatos à câmara de vereadores e a imprensa.



O evento será realizado neste domingo, dia nove, às 12h.

O CTG Estância Gaúcha está localizado na rua Florida, nº 380 - Bairro Central Parck - Canoas, RS.





Conto com a sua presença e colaboração na divulgação.

Aguardo confirmação, abraço

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Fragilidade das Relações e a insegurança amorosa: Um breve discurso sobre Bauman e Giddens.

A Aproximação
O que podemos observar hoje, que nas relações amedrontadas é que não existem mais afetividade, nem relações duradouras ou quiçá um único parceiro. Somos cada vez mais estranhos para nova sociedade da banalidade.
Segundo Giddens, "para que um relacionamento tenha a probabilidade de durar, é necessário o compromisso; mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a sofrer muito no futuro, no caso do relacionamento vir a se dissolver"
(Giddens, 1993: p. 152)
Temos receio de se entregar nas relações cotidianas, e isso nos exclui diariamente, e não notamos a grandeza deste isolamento, não queremos sofrer e correr riscos nos desafetos amorosos é preferível sentir apenas receio e solidão garantida pela segurança.
As relações são veladas, a violência, a concorrência, os desafetos transformam esta realidade.
A intimidade é ofuscada pelo medo, a insegurança não nos deixa encontrar um endereço fixo e as relações de afetividade perdem lugar para o mundo do trabalho, para os “service full e os shopping centers”, e as comodidades da vida moderna regrada nas banalidades da contemporaneidade.
Para Bauman este aspecto se apresenta com muita propriedade na violência das grandes metrópoles, onde descobrimos rapidamente que não estamos livres da irracionalidade destrutiva da maldade humana. (Bauman, 2001: p.8)
Buscamos uma série de formas adequadas e inadequadas para nossa segurança, para ficarmos longe da agressividade social, perdemos tempo e muito dinheiro para criarmos novas formas de segurança, para manutenção do nosso bem-estar pessoal ou familiar.
O distúrbio urbano social, e a violência social controlam o desequilíbrio liquido da sociedade tecnocrática.
“O desenvolvimento das sociedades modernas, o controle dos mundos social e natural – o domínio masculino – ficou centralizado na razão. Assim como a razão, guiada pela investigação disciplinada, foi separada da tradição e do dogma, também foi separada da emoção”. (Giddens, 1993: p. 218)
Neste ponto os autores se encontram com muita propriedade quando discutem as perdas das emoções, os amores, as generosidades, o respeito pelo próximo, que não pode ficar mais tão próximo pela necessidade de se manter seguro e inalcançável.
Buscamos cada vez mais por uma segurança blindada e por um amor desprendido de compromisso que não afete o nosso cotidiano e não ofereça perigo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

As mudanças e as suas singularidades, com um olhar antropológico

Na etapa inicial da modernidade na metade do século XX , o cristianismo era considerado funcional aos interesses do capitalismo emergente, garantindo o respeito e a aceitação das normas que regulamentavam a convivência social, mesmo que alguns pontos da moral fossem contestados.
A modernidade costuma ser entendida como um ideário ou visão de mundo com a perspectiva com a qual um indivíduo, uma comunidade ou uma sociedade, enxerga o mundo e seus problemas em um dado momento da história, que está relacionada ao projeto de mundo moderno, empreendido em diversos momentos ao longo da Idade Moderna . Consolida-se com a Revolução Industrial .
A Revolução Industrial é acentuada dentro deste processo da transformação que a família perpassa, por ser decorrente de um processo escravista que a
sociedade viveu. Homens brancos trabalhando como homens negros, mulheres e crianças trabalhando como homens brancos e negros, recorrente da necessidade da manutenção da família.
E fácil enxergar que a família está marcada pelas nuanças que a sociedade impõe. Todas as transformações que indivíduo recebe de forma direta ou indireta através da sociedade vão ter sua representatividade dentro da família. Qualquer fato, por mais simplista que seja, que altere os comportamentos sociais, culturais, econômicos e religiosos, vai refletir na sociedade, que se insere na família e altera o comportamento do indivíduo.
É importante lembrar que a Revolução Industrial significou o início do processo de acumulação rápida de bens de capital, com conseqüente aumento da mecanização que relacionamos com freqüência ao desenvolvimento do Capitalismo .
O Capitalismo é definido como um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, no lucro, nas decisões quanto ao investimento de capitais feitas pela iniciativa privada, e com a produção, distribuição e preços dos bens, serviços e exploração da mão-de-obra afetada pelas forças da oferta e da procura.
Podemos dizer que o Capitalismo é um dos processos dentre alguns relacionados acima que mais converge à estrutura da família tradicional.
Num segundo momento, a ética herdada da tradição pareceu apresentar mais problemas do que soluções para uma sociedade que necessitava de outros valores “igualdade e liberdade”, e de outros direitos, quase sempre divergentes dos consolidados na tradição.

A ideologia do individualismo funda suas bases sobre a igualdade e a liberdade. Ao desprezarem a hierarquia social, todos os homens tornam-se iguais e livres perante o Estado. As funções determinadas pela posição social que o indivíduo ocupa são abolidas e, conseqüentemente, o Estado não consegue administrar a vida social e individual do homem. Não há referências para se espelhar; a noção de direitos e deveres se desvanece.

O homem moderno abdica de todo sistema de crenças e valores, negligenciando a trajetória de sua história social para consagrar a satisfação pessoal. Ocorre uma desintegração do indivíduo em relação à sociedade. Ele vive em função das suas necessidades individuais, de maneira que a existência do outro varia de acordo com sua necessidade. (DUMONT, 1993, p.7-8).

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A República dos Esquecidos

A conspiração estava começando, apoiada então pelos poderosos da maçonaria, parece que me vejo revivendo situações cotidianas, o povo sendo massacrado, sem direito de resposta, crianças vendo seus pais irem sem previsão de retorno, e quando retornam deixam seus corações no campo de batalha.
Os negros servindo de escudo humano, meninos negros que deveriam estar brincado de ciranda, são lançados a ciranda da vida, ou seja, a roleta russa de um parque sem diversão, com ingresso só de ida e permanente, e se voltarem são obrigados a se reapresentar para sua companhia, pois seu destino já esta traçado a morte é inevitável.
Meninas brancas são violentadas por soldados brancos e isso causa grande impacto a sociedade burguesa, e meninas negras nascem vendo suas mães serem violentadas e sabem que mais cedo ou mais tarde sofreram a mesma sina, e rezam para um “Deus” que os brancos desconhecem pedindo para que esse dia nunca chegue.
O governo central sobretaxava o charque, e impunha pesadas sanções econômicas, e o povo do Sul não tinha o direito de escolher o presidente da sua própria província.
Surge então Fernandes Braga, destinado para o governo da província, mas não lutava pelos interesses do povo, a conspiração necessitava de um bode expiatório e o General Bento Gonçalves tinha o perfil ideal.
General Netto, David Canabarro, Anita Garibaldi, Giuseppe Garibaldi e Bento Manoel Ribeiro fizeram a diferença do curso da história no Rio Grande do Sul. Estes atores tiveram papel principal, marcando para sempre o seu nome no livro idolatrado dos Gaúchos.
A minha intenção não é desvalorizar nomes memoráveis da nossa história, e nem tão pouco desprezar a sua importância para o fato, mais é lembrar dos quadjuvantes, e secundários alguns já citados acima.
Tivemos também, mães que choravam pelos filhos que não retornaram, ou retornaram mutilados, esposas brancas e negras cumprindo seu papel de mãe e pai, enfermeiras e médicos sem o conhecimento adequado e estrutura para exercer sua profissão, sofrendo juntos no silêncio tétrico de uma batalha ou outra, vendo pessoas morrerem por falta de esparadrapo, é irônico mais é verdadeiro.
Fora do combate, a comida era racionada e ocorria uma outra guerra oculta no silêncio dos bastidores, a fome assolava o Sul, sem distinção de raça ou credo, foram dez anos de batalha para eleger heróis, criar histórias e nos tornarmos um Estado diferenciado do Brasil.
Cada região tem sua história, mas o patriotismo do povo é o que modifica seu contexto. É mais que natural valorizarmos o que somos e o que temos em casa, por isso, toda história seja ela sangrenta e amarga tem seu valor bairrista.
Quando falamos no começo do texto, sobre revivermos situações cotidianas, isso não quer dizer que o Brasil não evolui, e que não teve sua parcela de desenvolvimento, mas, infelizmente continuamos a mandar para os campos de batalhas “as ruas” nossos meninos brancos e negros, ambos agora no batalhão de frente lutando pela vida, por comida. Nossas meninas continuam a se prostituírem pelas ruas escuras e sem segurança, e a nossa milícia se corrompe e se vende por falta de estrutura e condições psicológicas.
O governo continua sobretaxando os impostos, e o custo de vida passa a ser chamado custo de sobrevivência, mas para equilibrar, hoje podemos escolher os presidentes das nossas províncias.
As mães continuam a chorar por filhos que não voltaram da escola, que morrem atropelados, que receberam uma bala perdida de um tiroteio entre policiais e traficantes, por maridos desempregados e desiludidos pela pátria, mas, devemos nos “pilchar”, calçar nossas botas, pendurar o facão na cintura, encilhar nossos cavalos e comemorar o 20 de Setembro, pois as mudanças ficaram bem claras, só ficou faltando a Independência do Rio Grande do Sul para nossa fábula estar completa.

Texto publicado no site D.A (Diretório Acadêmico) de Ciências Sociais na Unisinos em 2007.